Estou, pela primeira vez, a escrever neste teu presente. Presente teu esse com memória de passado. Mas, como disseste, e, com toda a razão, pois concordo plenamente, vão-se os anéis e ficam-se os dedos, ou seja, as boas memórias são as que ficam, as que perduram pelo tempo, por mais que este tente rasgá-las. Apagá-las.
Decidi, portanto, recuar a página e reencontrar-te. E, curiosamente, reencontrei-te na Página Vinte e Três, por isso, será esse mesmo o nome com o qual irei intitular este “texto” (se é que, no final, assim poderá ser considerado, visto estar a redigi-lo numa altura em que preciso de desabafar, de me libertar de lutas interiores), Página Vinte e Três.
Foi, exactamente, neste dia, no dia Vinte e Três, que se operou uma reviravolta nas nossas vidas. Reviravolta essa que, ainda hoje, não consigo qualificar devido ao vasto conjunto de factores, quer positivos, quer negativos, que lhe estarão para sempre associados. Página Vinte e Três essa que deixaste, talvez, por vontade própria, ou por mero lapso, quem sabe, em branco e que eu senti agora necessidade de a preencher. Tal como ela se encontrava inicialmente, também eu me sinto, neste momento, assim. Em branco. Vazia. Tudo parece ter desabado à minha volta, embora creia que tudo se reestruturá, em breve, de uma outra forma.
Enquanto tal não acontece, venho falar contigo (Será que posso, ou será ousadia a mais da minha parte? Mesmo que venha um redondo não, eu vou fazê-lo).
Dizer-te que tenho saudades tuas.
Saudades do tempo que era nosso.
Saudades desse tempo, que, por nos ser tão caro, parava relógios e nos levava a viajar.
A viajar por um mundo (igualmente nosso) sem que, para isso, fosse necessário, descolarmos do chão, perdermos a verticalidade, ou, até mesmo, a consciência.
Saudades do tempo em que nele deambulávamos. Ora de zonidapus, ora de ziribiguidófilo à base de tamilufa, ora de zonidói, ora de zonidapum.
Saudades do tempo em que as minhas palavras eram as tuas – vinte e dois, Biblioteca Raquel, chamada telefónica, pipi, fofa, Hello Kitty, fio dental, noventa e nove amiguinhos, chupa-chupa em forma de goma, Válega, intenso, Dina como homem, 1+1=1, beijoca, beijo sussurrado, candeeiro inapagável.
Saudades do tempo em que os meus olhos eram os teus.
Saudades do tempo em que eu eras tu.
Saudades do tempo em que tu moravas em mim e vice-versa.
Saudades do tempo em que me seguravas a mão e isso bastava para viver.
Saudades do tempo em que falávamos no silêncio.
Todavia, como tudo o que é bom, acaba depressa, está (in)felizmente na altura de virar a Página. De viver o presente, como dádiva que é (caso contrário, não se designava assim, de presente). De reconhecer que a vida só o é, quando há cabeçadas contra a parede, quando há pontapés e bofetadas à mistura, porque, sem eles, não haveria qualquer aprendizagem, crescimento, e/ou amadurecimento.
Contudo, se me perguntares se penso que este percurso está já terminado, não te sei ainda responder. Só o tempo o dirá, e, talvez, um dia, mais tarde, percebas que, embora ninguém seja perfeito à face da Terra, eu, na minha perfeita imperfeição, nunca te traí por um minuto que fosse.
P.S. Obrigada por tudo. Espero que estejas bem. Mereces este mundo e o outro. Deixo-te com um forte abraço.
Ana, aquela, que, outrora, chegou a ser tua.
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