sexta-feira, 18 de setembro de 2009

C de Cookie

Há muito tempo atrás, pediram-me que escrevesse um texto, a partir de frases feitas, de lugares comuns, de clichés, no fundo. E, embora não seja adepta deste tipo de linguagem, aceitei o desafio e pus-me a pensar num tema que desse pano para mangas. Foi, então, que me veio à cabeça os animais domésticos e a sua importância na nossa vida para quem não os olha, tal como eu, como um objecto, como uma vaidade, como mais uma parte de nós, uma espécie de alter-ego, mas sim como uma deliciosa companhia de quatro patas a quem devemos muito, daí que nele explique toda a história da minha cadela Cookie.
Para o levar a cabo, contei com a já habitual ajuda da Minha Ervilha que me forneceu um livro de consulta sobre provérbios, ditados populares, lenga-lengas, e outros dentro do mesmo género, onde pude fazer uma pesquisa acerca da temática já referida e dele retirar os que mais se adequavam ao meu intento, para além de se disponibilizar a ler, a reler e a opinar no final da sua redacção. Por tudo isto, devo-te uma. (Pago-te com um beijo sussurrado, aceitas? xD)
No dia em que te conheci, tinham-me martelado literalmente, diante de mim, o telemóvel. Um Nokia 2310 que me fora oferecido por uma pessoa amiga.
Contudo, o mundo não acabava ali, porque, em primeiro lugar, antes desta nova era tecnológica, os indivíduos não se deixavam de comunicar (bastava que houvesse interesse de parte a parte para tal), e, depois, há mar e mar, há ir e voltar.
Cedo, então, me apercebi de que este facto não tinha sucedido por mero acaso: nada assim o é. Nada assim acontece. Por mero acaso. Por dar cá aquela palha. Ou mesmo como fruto do fatum, isto é, da predestinação. Acontece sim porque nós assim o condicionamos. Somos nós, cada um de nós, dia após dia, quem vai traçando as linhas da vida, embora haja quem advogue a favor da existência divina como explicação para toda e qualquer realização terrena, culpabilizando-a, a esta entidade superior, dado que é sempre mais fácil colocar os erros nos outros e vermos os problemas através deles, quase perfeita, designada, por alguns, como Deus, por outros como Alá, que nos “avalia”, a cada momento, para, mais tarde, nos poder punir ou beneficiar (tudo dependerá, obviamente, do nosso comportamento).
Minutos antes de te conhecer, acontecia o que já era previsto, o que já tem vindo a ser um hábito, cá de casa, desde os meus quatorze anos: eu arrumar a cozinha, depois do jantar. Mas, minutos antes de te conhecer, o imprevisto também tinha lugar, o imprevisto também acontecia: virem-me avisar para me despachar que tinha uma surpresa à minha espera.
Como é que reagi?
Lavei, de imediato, as mãos para delas retirar a espuma do detergente de loiça e fechei a torneira. Fechei a torneira, dirigi-me até ao pátio e deparei-me contigo. Estávamos nós no dia 25 de Março de 2008. Faz hoje um ano e seis meses: como o tempo voa!! Tão pequenina e frágil, que dava dó só de pensar como é que alguém vos pode abandonar assim, ou ir de férias e esquecer-se, pura e simplesmente, sem dó nem piedade, que vocês, como seres vivos que são, sentem e experienciam, tão bem ou melhor do que nós, ditos humanos, ou animais racionais como lhe queiram chamar, o que é a dor, a ausência, o frio, o medo e o afecto. Tão pequena e frágil que só dava vontade de te pegar ao colo. E foi exactamente isso que fiz sem mais demoras. E, assim que te aconcheguei, junto do meu peito, e te embalei nos meus braços, enfiaste o focinho por dentro do meu casaco de fato-de-treino (que se encontrava aberto na altura): entendi isso como um Fica comigo. Não me abandones. O que eu preciso é de mimo. De resto, deixa comigo que me portarei bem. Prometo-te. Fica comigo. Vá lá. e beijei-te a nuca. Começaste a lamber-me e continuaste enroscada.
Depois, perguntaram-me se eu queria ficar contigo, ao que respondi prontamente, sem hesitar nem um segundo que fosse, que sim, pois, há muito, que queria ter um amigo, como tu, na minha vida, um amigo de quatro patas, ainda que a resposta obtida fosse quase sempre esta, sendo quase sempre, presa por ter cão e por não o ter: Primeiro, tu estudas e eu trabalho. Vamos as duas, cinco dias por semana, cedo para o Porto e só chegamos de tarde a casa, por isso, não temos tempo de cuidar de um animal, o que o levará ao sofrimento. Depois, vivemos num prédio e seria quase impensável aceitar-se um cão nestas condições, logo, está decidido: agora não, Ana. Um dia, quiçá? Talvez, um dia, ...
E o dia acabou mesmo por chegar, porém, tardou a acontecer, e, nesses entretantos, fui mantendo contacto com outros animais, tão amigos do Homem como tu: o Toddy, o Óscar, a Daisy, o Boris e a Mimy – Quem não tem cão, caça com gato.
O Toddy, que vivia cá fora, na casota, de quem eu sempre tive medo, contrariarmente aos restantes quatro; o Óscar, um gato excepcional, preto, com manchinhas brancas e cinzentas, de olhos verdes, que podia ir dar a sua voltinha, que bem sabia onde morava, regressando ao seu habitat, onde dormia, por cima do guarda-fatos, à beira dos sapatos; a Daisy que, sendo uma rafeira castanha, só lhe faltava falar, pois sempre que nos aproximávamos dela, nos dava a pata, pedindo-nos festas, e, se não lhas dessemos, roçava a sua cabeça em nós, como quem diz Desta não te escapas, não te faças de desentendido; o Boris, um verdadeiro husky, de um olho de cada cor, um azul, outro castanho, que viera da Clínica Veterinária de Matosinhos, onde trabalha a minha madrinha, traumatizado pelos maus tratos que a dona lhe dava, que dorme debaixo da cama, e que, um dia, me levou de rastos, assim que avistou um gato, enquanto o passeava; e, por último, a Mimi, cujo nome teve origem em Mimosa, uma gata que, como todas as outras, faz romrom assim que a mimamos, que fora encontrada na rua, por nós, eu e a Filipa, aquela minha primaça aguada, a melhor do mundo, aquando uma ida ao trabalho da Tiana, no carro da Ló.
Foi através da minha madrinha que eu percebi como é possível ter-se animais educados, limpos, dóceis e felizes a conviver connosco. A ela lhe devo tudo que hoje sei: dar-se o Frontline uma vez por mês, a dia 29; devemos levá-los regularmente ao veterinário; passeá-los todos os dias para se tornarem sociáveis e não raivosos; dar-lhes banho de quinze em quinze dias com um shampôo próprio; atribuir-lhes um nome curto, de apenas duas sílabas, porque estão mais preparados para o ouvir; alimentá-los de acordo com a sua idade e tamanho; recorrer a um jornal, como instrumento basilar à sua educação, e não a actos violentos (como pontapés, estalos, ....), uma vez que se assustam com o baraulho das folhas; envolver comprimidos em comida caseira que os atraia (doces, fiambre, ...) para quando estão doentes e rejeitam a sua alimentação.
Nesse mesmo dia, tive que assegurar a tua sobrevivência, porque não tínhamos comida para ti. Então, contigo ao colo, e, com a ajuda das duas meninas que te trouxeram, fui ao encontro do teu antigo dono perguntar-lhe o que te estava a dar em termos de alimentação. De lá, saí com um saquinho transparente (daqueles destinados aos legumes e às frutas nos supermecados) recheado dos teus biscoitos.
Deu para dois dias, se tanto. Mas, não houve qualquer problema, pois já tínhamos comprado mais.
Nesses primeiros tempos, vivias na marquise, envolta em folhas de jornal, de mantas e de brinquedos, que, com o passar dos dias, foram desaparecendo por obra do espírito santo ou porque íam sendo roídos por ti. Nesses primeiros tempos, espreitava-te pelo postigo da cozinha para ver se respiravas, se comias, se dormias, no fundo, se estavas bem.
Depois, assim que comprámos uma casota, ou, uma caminha, palavra que tu bem conheces, foste estrear o pátio, como área de habitabilidade.
No entanto, por vezes, regressas à marquise em dias de chuva ou naqueles que estás mais frágil fisicamente, sendo o caso mais exemplar o momento em que foste castrada, momento esse em que chorei que nem uma perdida, porque estavas tão mole e tão pedrada que só dormias, não prestando qualquer atenção à comida.
Depois, para que houvesse interacção entre nós, tivemos que te nomear e aqui a dúvida consistiu em eleger, dos inúmeros nomes já atribuídos a colegas teus - Pantufa, Bobi, Boneco, Black, Gastão, Farrusco, Lassie, Fifi, Júnior, Ozzi e Sasa – um que fosse especial, e, olhando para ti, seguindo à risca as sábias palavras da minha madrinha, a minha mãe decidiu chamar-te por um que começa por C, lá está, realmente faz todo o sentido, C de Cão, C de Cookie, Cookie que vem de bolacha, de bolacha tão doce que és.
Cão é cão, mas é para ser tratado como um nosso semelhante, daí haver os Direitos dos Animais, assim como os Direitos Humanos, patentes na Declaração Universal, livros como Cão Como Nós, de Manuel Alegre, Marley & Eu, de John Grogan e Cães como Nós, um dos artigos da jornalista Rita Ferro Rodrigues, publicado no seu Parapeito.
Tu que gostas de papinha boa, isto é, de comida caseira envolvida em biscoitos de cão e de gato, seja fruta, seja doces
Tu que gostas de ir à rua
Tu que gostas de roer ramos das árvores que te trago dos nossos passeios
Tu que gostas de brincar com o teu ossinho, sempre que to atiramos e corres atrás dele para o ires buscar
Tu que gostas de dar hi5´s pata/mão, o que é divertido de se ver
Tu que gostas de colo
Tu que gostas de lamber os nossos pés
Tu que gostas de correr feita louca à entrada do nosso prédio
Tu que gostas de te deitar em cima de roupa lavada, que está a secar na corda, até a puxares ao ponto da mola fazer Pock
Tu que gostas de mordiscar em coisas que não deves, alturas essas em que arranjas, inevitavelmente, sarna para te coçar – baldes do lixo, mangueira, sacos, cabos de esfregona
Tu que gostas, por incrível que pareça, dos dejectos dos teus próprios amiguinhos
Tu que não gostas do barulho dos lixeiros
Tu que não gostas do som do aspirador
Tu que não gostas dos foguetes em épocas festivas
Tu que não gostas de desconhecidos, a quem rosnas com medo, indo esconder-te, depois, na tua caminhaCão que ladra, não morde
Tu que me conheces a mim, à minha mãe, ao João, ou seja, às pessoas que já consideras de casa, a quem reages aproximando-te delas, abandonando-lhes a cauda ou lambendo-lhes, como que cumprimentando-as, porque O cão e o menino vão para quem lhe faz carinho
Serás sempre a minha Cookie, de quem eu vou gostar sempre, por muito que me digam que ladres, que têm medo de ti, que me peçam para te prender para passarem, que isto não é um jardim zoológico, etc, etc e etc, porque a verdade é que Os cães ladram e a caravana passa.

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