sexta-feira, 6 de março de 2009

Odeio.te.

Odeio-te.
Odeio-te a cada dia que passa. A cada dia que passa, aumenta o meu ódio por ti. A cada dia que passa, torna-se mais visível: ganha rosto, peso e relevo. Aliás, por ti, já nada sinto (o pouquíssimo que restava, felizmente, evadiu-se, ou seja, hoje, odeio-te, amanhã, odiar-te-ei mais, e assim sucessivamente. E assim sucessivamente, sempre num profundo crescendo.), ou melhor, sinto. Sinto ódio. Um profundo profundíssimo íssimo ódio. Sim. Ódio. Ódio, ódio e mais ódio.
Ódio.
Sim, ódio.
Odeio-te por tudo.
Pela diferença.
Pelo cinismo.
Pela cobardia.
Pelo exibicionismo.
Pela arrogância.
Pelo egoísmo.
Pela falsidade.
Pelo racismo.
Pela discriminação.
Pelo preconceito.
Pela invasão de privacidade.
Pelo discurso "vitimizatório", do "coitadinho".
Pela ditadura.
Pelo bem-estar com o mal alheio.
Pela censura.
Pelo chamar à atenção, como se o mundo girasse à tua volta. À volta desse teu umbigo. Tão enganado!
Odeio-te!
Para ti, sempre fui a incerteza.
Os outros, a certeza.
Para ti, sempre fui a indisciplina, a desobediência, a resposta pronta.
Os outros, a disciplina, a obediência, a resposta pensada.
Para ti, sempre fui o erro, a falha.
Os outros, a correctude, a exactidão.
Para ti, sempre fui o mal.
Os outros, o bem.
Para ti, sempre fui o pólo negativo.
Os outros, o pólo positivo.
Para ti, sempre fui o negro.
Os outros, um lindo arco-íris.
Para ti, sempre fui o nada.
Os outros, o tudo.
Para ti, sempre fui a tristeza.
Os outros, a alegria de viver.
Para ti, sempre fui a morte.
Os outros, a vida.
Para ti, sempre fui o avesso.
Os outros, o direito.
A vida trocou-te as voltas, daí a tua frustação (e o teu consequente desejo que o mesmo em mim se repita), mas creio que terás azar: já pouco falta para te provar (embora não tenha que te evidenciar nada. Rigorosamente nada. A vida, por si só, tratará de te dar umas boas chapadas) que as inúmeras Raquéis, por aí existentes, convertidas em incertezas, em indisciplina, em desobediência, em grandes nadas, em erros, em verdadeiros falhanços, em avessos, em perigos, em tristezas, em mortes, também têm o seu valor. Também são pessoas. Sim, Pessoas. Aliás, são essas mesmas Pessoas que tu desprezas, que mais vingarão adiante, porque a Vida fez o favor de as moldar desde muito cedo.
Sabes que mais?
Odeio-te.
Adeus.
Morre longe.
Longe?
Não.
Bem longe. Muiiiiiiito longe.
E devagar.
Bem devagarinho.
Será excesso de palavreado ausente de eufemismos?
Não.
Puro ódio.

1 comentário:

_MarDanS_ disse...

Depois do ódio existe algo diferente. Um sentimento que chega a não ser sentimento, mas sim um dossier de arquivo do momento de vida que partilhaste a encher de pó que provavelmente nunca vais voltar a abrir. Daqui a algum tempo será a indiferença...